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18 Fevereiro 2018 3:56 pm

De automutilação a suicídio, síndrome de borderline atinge 76% as mulheres saiba

De automutilação a suicídio, síndrome de borderline atinge 76% as mulheres saiba

Na última semana, o desaparecimento da jovem Maria Luisa Lotuffo Levy, 19 anos, colocou em evidência a Síndrome de Borderline, também conhecida como Transtorno de Personalidade Emocionalmente Instável. Em meio a uma crise, a moça esperou os pais dormirem e saiu de casa na madrugada do domingo (14), em Cuiabá, até Itiquira, município que chegou pedindo carona. O psiquiatra Carlos Periotto e a psicóloga Jaqueline Javorski explica melhor o assunto.

O transtorno é caracterizado pela instabilidade das emoções, relações interpessoais instáveis, autoimagem distorcida e impulsividade acentuada. “Este padrão de comportamento disfuncional é inflexível ao longo do tempo e difuso nos vários contextos da vida do individuo”, diz Periotto.

Gilberto Leite

 jaqueline javoski e eduarda fernandes

Em entrevista à repórter Eduarda Fernandes, a psicóloga  Jaqueline Javoski explica que quem sofre com a síndrome de Borderline vive limite das emoções

A psicóloga comenta que apesar das crises se assemelharem a um surto, são na verdade consequências da instabilidade emocional oriunda de uma condição genética específica. “A pessoa vive entre o limite da normalidade e o limite das emoções dela. Não é apenas um chilique”, defende e cita que um ambiente onde as emoções são altamente conflitantes pode desencadear as crises. Ambos explicam que os sintomas costumam aparecer entre o final da adolescência e início da fase adulta.

Portadores da síndrome temem o abandono, seja real ou imaginado. “Vivenciam medos intensos de abandono e experimentam raiva inadequada mesmo diante de uma separação de curto prazo, sentem pânico ou fúria quando alguém importante para eles se atrasa alguns minutos ou precisa cancelar um compromisso. Os esforços desesperados para evitar o abandono podem incluir ações impulsivas, como automutilação ou comportamentos suicidas”, detalha o psiquiatra.

A instabilidade se reflete nos relacionamentos amorosos, que costumam ser intensos e de muitas cobranças, pois esperam do parceiro dedicação integral. Quando o parceiro não corresponde à expectativa, explodem. “E, geralmente as explosões são assim, instantaneamente eles cometem um desatino”, alerta a psicóloga.

Marcus Mesquita

Carlos periotto psiquiatra

Psiquiatra Carlos Periotto diz que indivíduos podem mudar de papel na sociedade

Periotto acrescenta que há mudanças súbitas e dramáticas na autoimagem de uma pessoa com o transtorno, caracterizadas por metas, valores e aspirações vocacionais inconstantes. “Podem ocorrer mudanças súbitas em opiniões e planos sobre carreira profissional, identidade sexual, valores e tipos de amigos. Esses indivíduos podem repentinamente mudar de um papel de suplicantes necessitados de ajuda para o de vingadores justos de maus-tratos passados”.

O psiquiatra elenca algumas áreas que se mostram potencialmente autodestrutivas para indivíduos com o transtorno. “Podem apostar, gastar dinheiro de forma irresponsável, comer compulsivamente, abusar de substâncias, envolver-se em sexo desprotegido ou dirigir de forma imprudente”. Além disso, a automutilação é bastante comum. Casos de suicídio são registrados em 8% a 10% dos pacientes.

Segundo a psicóloga, de 75% a 76% dos portadores da síndrome são mulheres, justamente por este sexo ser mais emocional e o homem é mais racional. Aproximadamente 2% da população mundial está diagnosticada com borderline. Se não tratado, a instabilidade das emoções permanece, inclusive com episódios graves e risco de suicídio nas crises.

De acordo com o psiquiatra, portadores desta síndrome normalmente possuem outros diagnósticos, como depressão, transtornos do pânico e de estresse pós traumático, dependências químicas, entre outros.

Gilberto Leite

 jaqueline javoski

Jaqueline diz que crises de pacientes são oriundas de condição genética específica

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico pode ser feito tanto por psicólogos, quanto por psiquiatras, e não são necessários exames. Já o tratamento envolve medicamento e acompanhamento multiprofissional.

Periotto entende ser possível após aproximadamente 10 anos de tratamento um paciente não mais apresentar um padrão de comportamento que atenda aos critérios para o transtorno da personalidade borderline. “A maioria dos pacientes quando bem medicados e motivados na terapia consegue melhora significativa dos sintomas e seguir com uma vida normal”.

Javorski, por sua vez, avalia que o tratamento leva apenas a remissão dos sintomas, mas “uma vez border, sempre border”. “A medicação vai ajudar o cérebro a trabalhar novamente sobre estas neurotransmissões que estão deficientes e a psicoterapia ajuda a pessoa a aprender a identificar o que é sintoma e o que é comportamento. Nós fazemos uma psicoeducação do transtorno. O paciente vai aprender a domar os próprios sentimentos, aí ela entra em remissão de sintoma”.

Jaqueline Javorski é psicóloga graduada pela Universidade de Cuiabá (UNIC) e especialista clínica pelo Centro de Estudos da Família e do Casal (CEFI/RS). Carlos Renato de Lima Periotto graduou-se em medicina pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (2008) e é especialista em psiquiatria pela Universidade de São Paulo – Campus Ribeirão Preto (2013).

 

Gazeta MT/Eduarda Fernandes

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